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Inovação e projeção internacional marcam trabalhos de pesquisas no serviço de transplante de medula do Complexo Hospital de Clínicas

SÉRIE: TMO 40 ANOS

Inovação e projeção internacional marcam trabalhos de pesquisas no serviço de transplante de medula do Complexo Hospital de Clínicas

O primeiro transplante de medula óssea da América Latina foi realizado no Hospital de Clínicas da UFPR

A relação do professor e médico Ricardo Pasquini com a ciência foi o que possibilitou que, ao lado de Eurípides Ferreira, o primeiro transplante de medula óssea da América Latina pudesse ser realizado no Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná.

Para ele, salvar vidas era um objetivo a ser concretizado, pois o país ainda não tinha solução alternativa para as doenças do sangue. Os avanços registrados no exterior e os estudos hematológicos de uma equipe do Paraná deram condições para que isso ocorresse e para que o HC fosse também pioneiro na América Latina em outros dois momentos: em 1992 realizou o primeiro transplante utilizando células de cordão umbilical. Depois, em 1995, foi referenciado como primeiro centro de transplante apto a utilizar medula óssea de doadores não aparentados.

A sequência de feitos, mobilizados em função das necessidades dos pacientes, foi proporcionada por esse espírito científico da equipe do TMO, que resulta em um histórico de liderança acadêmica na área. “Este sempre foi um pilar do serviço. A pesquisa dá excelência ao atendimento. É com ela que respondemos novas perguntas, alcançamos novos horizontes e conseguimos produzir, não só reproduzir ciência”, explica a supervisora técnica, médica e professora Vaneuza Funke.

Uma das pesquisas conduzidas por ela, há cerca de 20 anos, foi o primeiro passo para a criação do ambulatório de leucemia mielóide crônica. Vaneuza conta que o desenvolvimento de um protocolo com um medicamento, até então novo, possibilitou uma resposta fantástica por parte dos pacientes. “Hoje esse medicamento já é distribuído pelo SUS e os pacientes daquela época continuam bem”, explica.

O desenvolvimento de novos protocolos para que os tratamentos sejam mais adequados e eficientes é uma das práticas de pesquisa que a unidade desenvolve. “São vários estudos com medicamentos, publicados em revistas muito importantes do meio médico”, explica. Os resultados dos estudos acabam sendo aplicados em outros hospitais, fazendo que o STMO/HC exerça uma liderança na área. “O STMO nasceu da pesquisa e vai continuar fazendo pesquisa para beneficiar os pacientes”, conta.

A participação da unidade no Center for International Blood and Marrow Transplant Research (CIBMTR), o registro internacional de transplante de medula óssea, também comprova a determinação da equipe para aliar resultados científicos à prestação do melhor serviço ao paciente. Hoje, profissionais do HC treinam equipes hospitalares ensinando como atuar diante dos dados estatísticos.

Para o supervisor médico da Unidade de TMO, Oncologia e Hematologia do CHC, Samir Kanaan Nabhan, isso sempre foi uma motivação para que o trabalho no CHC não fosse apenas assistencial. “Sempre entendemos a importância daquilo que estava sendo feito para a pesquisa. O fato de toda a informação, desde o início, ter sido publicada e compartilhada com registros mundiais como CIBMTR, por exemplo, fez com que nós criassemos uma rotina de análise”.

Pasquini acompanha com dedicação as novas descobertas da ciência: é o caso das infusões de células programadas ((células CAR-T). Essas células, segundo ele, são retiradas de um paciente com linfoma, por exemplo, e levadas para laboratório, onde a introjeção de um vírus e a reprogramação do DNA vão fazer com que a própria célula lute contra o tumor. “Isso foi demonstrado em quatro doenças, até agora, com uma eficácia muito grande. É necessário, também, ter todos os registros de dados, porque está mexendo com o DNA e não sabe o que vai acontecer”, comenta.

 

Ciência e esperança

O atendimento ao paciente e a ciência caminham lado a lado no Laboratório de Genética e Histocompatibilidade, em pesquisas que geram resultados eficazes para a seleção de doadores e os tratamentos oferecidos no STMO. Os estudos científicos são desenvolvidos sempre com a finalidade de melhorar a prática, e, por consequência, a vida de quem depende de soluções inovadoras da medicina.

A geneticista e bioquímica Noemi Farah Pereira acompanhou parte da história e ajudou a construir o espírito científico que acompanha as atividades do laboratório. “À medida em que o transplante foi aumentando, tanto em volume quanto em complexidade, o laboratório foi crescendo e construindo sua atuação, mas sempre tivemos como característica a inovação e a adequação às pesquisas mundiais”.

De acordo com ela, o aperfeiçoamento nos protocolos de transplante gerou novas linhas de pesquisa e serviços para a unidade, o que estimulou inovações dentro do laboratório, que no início tinha como função principal verificar a compatibilidade de doadores. “Sempre se investiu nisso e em pesquisas, com parceiros dentro e fora do país. Passamos a ter demandas de tipos de exames e de estudos mais complexos, para acompanhar a evolução tecnológica. Fizemos parcerias com centros do exterior em treinamentos para aprimorar nosso trabalho”, reforça.

Os resultados se efetivaram ao longo da história, mas, atualmente, também podem ser vistos em quatro trabalhos de destaque, desenvolvidos por funcionários do CHC. O bioquímico Alberto Lima pesquisa a histocompatibilidade - a semelhança ou identidade genética necessária para o transplante. Seu projeto consiste em  verificar se os pacientes têm anticorpos contra HLA incompatível com o doador.

A sigla HLA faz parte do dia a dia de quem trabalha com transplante: trata-se de um sistema presente em todas as células do organismo, que codifica proteínas que se relacionam à imunidade. Em transplante entre irmãos que não são totalmente compatíveis ou entre não aparentados, por exemplo, anticorpos contra o HLA podem fazer com que o transplante falhe.

De acordo com Lima, as metodologias do laboratório estão na vanguarda da técnica, pois a interpretação dos testes é complexa, feita a partir de uma análise que caracteriza os anticorpos para todos os pacientes. Isso evita resultados falso-positivos ou negativos, o que otimiza a seleção de doadores. “Fazemos isso para todos os pacientes, com peculiaridades e em um grau de dificuldade que outros não fazem”, explica.

A bióloga Alexandra Senegaglia, da seção de imunogenética, desenvolve um estudo com pacientes pós-transplante, pesquisando, especificamente, a doença do enxerto contra o hospedeiro, bastante comum e com alto índice de mortalidade. Nessa doença, as células transplantadas do doador passam a atacar o paciente, o que exige um tratamento mais longo e interfere na qualidade de vida.

A pesquisa consiste em isolar a célula, fazê-la crescer e infundir no paciente que manifesta a doença, sem necessidade de compatibilidade. Dez pacientes fizeram o tratamento, todos apresentando algum tipo de melhora. Numa primeira fase, há indicativos de que a prática é segura, mas uma nova etapa trabalhará com mais vinte pacientes.

O outro estudo é para tratamento de leucemias, linfomas e mielomas e prevê o desenvolvimento de terapia com células T-CAR, extraídas do paciente e reprogramadas para atacarem a doença.

 

Referência em Fanconi

Por meio da liderança da médica e professora Carmem Bonfim, o CHC se destacou, ao longo de sua história, como referência no tratamento da anemia de Fanconi, uma síndrome genética rara e de difícil diagnóstico. A doença provoca a falência da medula óssea e vem sendo estudada por ser considerada um modelo molecular do câncer. “Desenvolvemos um trabalho que é referência mundial”, destaca o supervisor médico da Unidade de TMO, Oncologia e Hematologia do HC, Samir Kanaan Nabhan.

O advogado Otávio Mendes, 26 anos, teve o diagnóstico somente após ficar gravemente doente, quando tinha dois anos. “Como eu não tinha os sintomas físicos da doença, era tratado como uma forte anemia”, conta. Encaminhado ao HC, ele pode, enfim, começar o tratamento, que envolveu o transplante de medula e vai seguir durante toda a vida. “Hoje, tenho uma média de cinco consultas por ano, mas uma qualidade de vida muito boa”, comenta.

A síndrome também mobiliza pesquisas no Laboratório de Imunogenética e Histocompatibilidade. A farmacêutica Daniela Pilonetto explica que as demandas clínicas do serviço, além do número expressivo de pacientes com esta doença, impulsionaram projetos para aprimorar o diagnóstico de Fanconi, possibilitando também que se busque o estabelecimento de uma relação dos genes reparadores com a biologia do câncer.

Segundo ela, um diagnóstico rápido e preciso é muito importante, pois afeta significativamente as decisões no tratamento e monitoramento do paciente. “O diagnóstico laboratorial começa com o teste de instabilidade cromossômica”, explica. A equipe que realiza este teste, no CHC, é a mais experiente do país nesse tipo de trabalho. “O diagnóstico molecular, com a identificação do gene e das mutações envolvidas na manifestação da doença, possibilita o aconselhamento genético às famílias”, completa.

Até o momento, a ciência descreveu 22 genes da Anemia de Fanconi - um número grande, que envolve muitas mutações diferentes. Por conta disso, foi necessário estabelecer uma estratégia para fazer a caracterização molecular de pacientes do Brasil. O primeiro passo foi desenvolver um teste de triagem para identificar onze mutações dos genes afetados com mais frequência. “Aquilo que não é identificado, segue para uma investigação mais abrangente”, explica.

Essa investigação resultou em 104 mutações diferentes, 52 delas novas, até então não descritas. Após a pesquisa, elas passam a compor o Banco de Dados de Mutação da Anemia de Fanconi.

O Serviço de Anemia de Fanconi, no qual o CHC é referência, conta com subsídio de projetos de pesquisa de origem nacional e internacional.