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Complexo HC participa de estudo que possibilita avanços no tratamento de AVCI no Brasil

Pesquisa

Complexo HC participa de estudo que possibilita avanços no tratamento de AVCI no Brasil

12 hospitais públicos realizaram ensaio clínico sobre a viabilidade da trombectomia no sistema de saúde pública brasileiro

 

Com o objetivo de comprovar a viabilidade técnica e econômica da trombectomia no tratamento de Acidente Vascular Cerebral Isquêmico (AVCI), na rede de saúde pública do Brasil, diversos hospitais públicos do país, dentre eles o Complexo HC, participaram do estudo RESILIENT.

Por meio de um ensaio clínico, o estudo visou determinar a segurança e eficácia da trombectomia (procedimento endovascular) em conjunto com a terapia medicamentosa em comparação com o uso apenas da terapia endovenosa do Trombolítico no sistema público de saúde do Brasil. A pesquisa foi publicada no New England Journal of  Medicine, que é uma das revistas médicas científicas mais prestigiada do mundo na área da medicina. O estudo foi uma parceria com o Ministério da Saúde, que em pouco tempo deve agilizar a inclusão desse tratamento no SUS.

HC é um dos pioneiros na implantação do tratamento

O AVC é uma doença prevenível, e mesmo tendo-se todos os cuidados com os fatores de riscos, está entre as 3 principais causas de mortalidade e é a primeira causa de incapacidade do mundo.

Em 2012, o governo brasileiro anunciou a inclusão da Trombólise (uso de trombolítico por meio endovenoso que dissolve o trombo) no SUS, fato que otimizou o tratamento e reduziu significativamente as sequelas em pacientes que sofreram AVC.

O Hospital de Clínicas da UFPR foi uns dos pioneiros na implantação desse tratamento, tendo feito um estudo local que foi publicado na revista Arquivos de Neuropsiquiatria – maior publicação nacional em neurologia - mesmo antes da aprovação pelo Ministério da Saúde e inclusão no SUS, tornando-se assim um serviço de referência.

Em 2015, houve um avanço nesse tratamento que, balizado pela comunidade científica internacional, demonstrou a vantagem da associação da Trombectomia ao tratamento endovenoso, em casos selecionados, por meio de um procedimento endovascular que necessita de uma equipe de intervenção hemodinâmica.

O que é a Trombectomia?

A Trombectomia visa remover um trombo que esteja obstruindo a artéria carótida interna ou a artéria cerebral média em um menor tempo possível para restaurar o fluxo cerebral. Há principalmente duas formas de retirar o trombo: uma é com o stent retriever, ou seja, é inserido um stent, por meio de um cateter, que entra no trombo e o capta para que ele seja retirado. A outra é por meio de aspiração, em que o trombo é aspirado por um cateter. Isso desobstrui a artéria, reestabelecendo a circulação.

Estudos mundiais comprovaram que o novo método tem uma eficácia maior, em até 70% dos casos, se combinar o trombolítico com a trombectomia. No entanto, são casos selecionados que necessitam de avaliação por neurologista. “Essa combinação é realizada quando a obstrução acontece num vaso muito grande e o trombolítico sozinho não tem o poder de dissolver o trombo, sendo necessário retirá-lo”, explica o hemodinamicista do CHC Robertson Alfredo Bodanese Pacheco, responsável pelo procedimento de trombectomia durante a realização do estudo Resilient.

A melhoria do tratamento com a aplicação endovenosa já trouxe bons resultados, porém em alguns casos, seja pela localização e tamanho do trombo ou pelo tempo decorrido dos sintomas, o resultado ainda pareceu limitado. São apenas quatro horas e meia entre o paciente ter os sintomas, ir até o centro de referência, realizar a tomografia e receber a medicação. Esse período é chamado de janela terapêutica.

Passado esse tempo, não se pode realizar a trombólise, mas ainda é possível optar pela trombectomia em alguns casos, que amplia a janela terapêutica para oito horas. A avaliação feita após 90 dias demonstra que tais pacientes conseguem se manter com independência funcional, ou seja, com pouca ou nenhuma sequela para realizar as tarefas básicas do dia a dia, explica a Professora Viviane Flumignan Zétola, neurologista e Coordenadora do Grupo de Doenças Cerebrovasculares do CHC.

A partir da evidência dos estudos feitos mundialmente sobre a eficácia do tratamento, o Ministério da Saúde propôs um estudo em que alguns centros de assistência específicos pudessem mostrar a viabilidade e custo-benefício do procedimento em um país em desenvolvimento. Assim surgiu o Estudo RESILIENT, em 2016.

“O estudo acabou em fevereiro de 2019. Em maio do ano passado, nós apresentamos o resultado no ESOC (principal fórum europeu de pesquisa sobre acidentes vasculares cerebrais) em Milão. Foi um estudo positivo, que mostrou que o Brasil tem condições de viabilizar esse tratamento pelo SUS (o procedimento já acontece nos hospitais privados). Agora falta turbinar esse resultado”, conta Viviane Flumignan Zétola que coordenou as atividades do estudo no CHC.

“O governo tem um gasto muito alto com pacientes pós AVC tanto na reabilitação, pois ficam com sequelas graves, quanto no internamento prolongado e complicações pós AVC. Isso gera custos para a saúde pública brasileira, que seriam reduzidos com a inclusão da Trombectomia no SUS”, afirma Robertson.

Viabilizar esse procedimento pelo SUS beneficia não só os pacientes, mas também os  médicos residentes. O hospital possui um caráter formador, e é importante que os residentes tenham acesso a esse tipo de procedimento na residência.

“Foi muito bom participar do estudo, é um aprendizado que eu não teria adquirido pelo SUS e sairia sem ter visto nada de trombectomia na residência”, conta Rebeca Teixeira, residente de neurologia no CHC.

Viviane completa: “Veja a importância da pesquisa em um hospital que capacita médicos, que tem residência. Nós temos o maior serviço de residência em Neurologia dos 6 hospitais em Curitiba que oferecem residência médica. Precisamos desse avanço e esperamos continuar a trazer e fazer pesquisa no nosso meio”.

“Agora, a meta é impulsionar os resultados, pressionar para que o governo passe a fornecer esse tratamento. Acredito que em breve a trombectomia já esteja totalmente incorporada no SUS”, especula Robertson.