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Semana Mundial da Amamentação

Saúde

Semana Mundial da Amamentação

Celebrada em mais de 120 países, a semana acontece anualmente de 1º a 7 de agosto e visa incentivar a amamentação e melhorar a saúde dos bebês do mundo inteiro.

Para entender mais sobre o assunto, leia a entrevista com o médico pediatra e mestre do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG), Sebastião Leite Pinto.

 

 

1. O que é a amamentação?

Amamentação é o ato de oferecer diretamente o seio à criança. Aleitamento materno significa oferecer o próprio leite à criança, podendo ser direto ao seio (amamentação), ou através de um veículo (copo, colher, mamadeira).

A amamentação não é uma responsabilidade exclusiva da mãe. Cabe à família como um todo apoiá-la. Mas, o que seria um apoio real e efetivo? Seria aquele que fortalecesse a mulher para cuidar-se e cuidar do filho. Como? Esteja próximo, com interferência mínima, aumentando a capacidade materna para cuidar. Evite ordens e julgamentos. “Resguarde” esta mãe de obrigações não vinculadas ao bebê. Lembremos: Quem cuida, antes de tudo, precisa ser cuidada! Vamos resgatar os valores positivos que a cultura do “resguardo” trazia às mães!

 

2.O que é o colostro?

 Chamado de “primeiro leite”, “sangue branco”, a secreção que recebe o nome de colostro tem uma composição que mais se assemelha ao sangue, do que ao leite, pois é rico em anticorpos e outras células de defesa, fundamentais à sobrevivência da criança. Também é rico em outras proteínas, gorduras e açúcares favorecendo o rápido crescimento físico e do sistema nervoso central. Mesmo estando em pequena quantidade ao nascimento, está em uma forma concentrada de nutrientes, garantindo a sobrevivência da criança.

 

3.Quais os principais benefícios do leite materno e da amamentação?

O leite materno apresenta benefícios nutricionais (único alimento que fornece ao bebê, em quantidade e qualidade, tudo o que ele precisa para crescer e se desenvolver, sem riscos de alergia ou intolerância). Possui células de defesa, reduzindo ao mínimo o risco de infecções. Diminui os gastos com aquisição de outros alimentos. A amamentação, ou seja, oferecer o leite diretamente ao seio, fortalece o vínculo mãe-filho (desenvolvimento do apego, satisfação por nutrir a partir do seu próprio corpo). Este ato fortalece emocionalmente a mãe, favorecendo um desenvolvimento saudável, com repercussões positivas no cuidar, e diminuição de abandonos e violências contra as crianças.

 

4. Até quando a criança deve ser amamentada?

Não existe uma definição de até quando isso deve acontecer, mas está clara a importância de amamentar durante os dois primeiros anos de vida. Está comprovado que, nos seis primeiros meses de vida, o leite materno é completo, do ponto de vista nutricional, imunológico e emocional. Após seis meses de vida, em função do padrão de crescimento da criança, há necessidade de introdução de outros alimentos. A manutenção do leite materno é fundamental, pois, além de garantir grande parte dos nutrientes necessários, permite que a criança transite emocionalmente com mais facilidade a cada nova etapa da vida. O encontro do melhor alimento (leite materno) com o melhor veículo (seio/colo materno) garante desenvolvimento mais harmônico e mais saudável à criança. O desmame deve ser espontâneo, carinhoso, um “acordo” entre mãe e filho.

 

5. Quais os riscos mais frequentes a que estão sujeitas as crianças que não são amamentadas?

Os principais riscos são de doenças infectocontagiosas (o leite oferece a “primeira vacina”), intolerâncias e alergias alimentares (o leite materno é “Espécie Específico”, com nutrientes adequados, reconhecidos pelo sistema imunológico), distúrbios emocionais e riscos de violências, riscos por falha na vinculação e na capacidade de cuidar.

 

6. No caso das mães que voltam a trabalhar antes dos 6 meses, é possível manter o aleitamento exclusivo? Se sim, de que maneira?

 

Sim, é possível manter aleitamento materno exclusivo (AME) e reiniciar estudos ou trabalho. As mães necessitam de apoio e ajuda para extrair, conservar e administrar o leite retirado. Todas as mães podem ser estimuladas a fazer a retirada do leite e orientadas quanto à técnica de extração e de armazenamento sob refrigeração. Se não receberem esta ajuda do pediatra que acompanha o bebê, podem procurar um Banco de Leite Humano, ou Posto de Coleta de Leite Humano, que serão orientadas. O leite pode ser armazenado sob refrigeração (até por 12 horas), ou congelado (até por 2 semanas). A retirada do leite deve ser feita antes e/ou após cada mamada.

Folders, vídeos e informativos podem ser encontrados no site do Ministério da Saúde (MS), ou site da Rede BLH (Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano).

 

 

7.Quais as dificuldades mais comuns que podem acontecer durante a amamentação e como evitá-las?

Uma das dificuldades mais comuns durante a amamentação está relacionada à técnica, ou seja, conseguir posicionar a criança ao colo, ajudá-la a abocanhar mamilo (bico do peito) e aréola (parte escura do seio). Além dos familiares, também os profissionais de saúde conseguirão auxiliar, através de informações no pré-natal e de apoio/manejo no Alojamento Conjunto e puerpério. Na maioria das vezes, sem o auxílio e adequação da técnica, a amamentação transcorrerá com dor (fissuras e/ou seios muito cheios) e risco muito grande de desmame.

Outra dificuldade, extremamente relevante, diz respeito à capacidade emocional para amamentar. Infelizmente, para o mamífero humano, amamentar não é visto como um ato natural, mas sim, que deve ser aprendido. Na maioria das vezes, aprender é entendido por todos, profissionais e familiares, como uma necessidade da mãe em receber ensinamentos e ordens, quando, na verdade, ela necessita de apoio efetivo (estar junto a ela, resguardá-la de atividades desvinculadas ao cuidado com o filho, fazer os cuidados com o bebê junto com ela, permitir que mãe e bebê se conheçam e caminhem juntos).

Uma mãe insegura, com cobrança dos familiares e da sociedade para que cuide de uma vida “de forma perfeita”, associada a profissionais e serviços de saúde que não oferecem ajuda efetiva, culminam em graus variáveis de dúvidas, passando pelo choro mais frequente, podendo chegar a quadros depressivos e de melancolia, necessitando de intervenção especializada e medicalização nos casos mais graves.

8.Quais os principais mitos quando se fala sobre o tema e os prejuízos que eles podem causar?

São várias as situações que levariam mães e familiares a duvidarem da capacidade de amamentar: seios grandes ou pequenos; mamilos (“bico do peito”) planos ou invertidos; bebês que querem “mamar o tempo todo”; bebês que só “se calam no peito”; cor e aspecto do leite (“só estas gotinhas”, “esta aguinha rala”); sensação de seios vazios, geralmente associado a choro frequente do bebê; dentre outras. Todas são situações possíveis de acontecer, mas que, na maioria das vezes, com apoio e auxílio técnico e emocional, conseguimos êxito.

Uma situação em particular prejudica muito o êxito na amamentação: a mãe introjetar que o seu “leite é fraco”! Este é realmente o “grande mito” da amamentação, pois, a não ser em condições de desnutrição grave da mãe, seu leite sempre terá todos os nutrientes necessários. De onde vem este mito? Vem da nossa necessidade de satisfazer a criança, ou seja, não deixar que ela chore, pois choro é invariavelmente ligado à “falta de comida”. Choro da criança, dúvida materna, choro da criança, olhares de cobrança, choro materno, insegurança da criança, choro da criança... (É, ou não, enlouquecedor!?”). Como intervir? Acolhimento e apoio qualificados à mãe, na técnica e, principalmente, no aspecto emocional. Formação de “Rede de Apoio Familiar” também é fundamental.

 

9.Existem situações em que são indicadas fórmulas complementares ao aleitamento ou indicação de bicos artificias como estratégias para acalmar o bebê.  Quais os danos que podem advir a partir disso?

 

Quando há necessidade de complementação da amamentação, existem fórmulas no mercado que podem ser utilizadas desde o início da vida (“Fórmulas de Partida”), ou a cada etapa de vida, prolongando-se até o final do segundo ano de via, quando é substituída pelo leite de vaca “in natura” e integral.

Os riscos à saúde da criança são diretamente proporcionais à precocidade com que são introduzidos. Quanto mais precoce, maiores são os riscos de alergias e intolerâncias, muitas delas graves. Outro risco importante da exposição precoce é o de aumentar o risco de sensibilização e desencadeamento de doenças crônicas, como diabetes, hipertensão, entre outras, bem como da obesidade.

A forma como você administra o leite não humano (uso de chucas e mamadeiras) também constitui um risco à saúde, diretamente por aumentar o risco de doenças infecciosas gastrintestinais (difícil manter estes veículos com higienização adequada, além do uso de águas de qualidade duvidosa na sua higienização) e, indiretamente, por facilitar inadequações na formação dentária e nas doenças bucais, como as cáries (“cáries de mamadeira”). Porém, o pior efeito das complementações com leites não humanos é a facilitação do desmame, prejudicial a todas as crianças, independentemente do nível socioeconômico. Todos estes riscos também estão presentes quando utilizamos as chupetas. Mães apoiadas se tornam competentes para satisfazer as necessidades da criança: colo e seio materno.

Do final da década de 80 para cá, como contraponto aos índices alarmantes de crianças desmamadas, ou  com risco acentuado para tal, em função do uso de fórmulas infantis, surgiram ações na tentativa de coibir estas práticas, dentre as quais se destaca a Norma Brasileira para comercialização de Alimentos Infantis, Bicos, Chupetas e Mamadeiras (NBCAL), transformada em Lei (Lei 11265/2005).

 

10. Há uma dieta especial para mães que estão em período de amamentação?

A mãe não necessitará de uma dieta especial, mas sim de dieta balanceada e alguns complementos medicamentosos, como o Ferro, por um período após o parto, em função da hemodiluição da gestação e das perdas sanguíneas do parto.

As “dietas especiais” (“canjas, milho, por ex.) são importantes, pelo fator cultural e pela valorização do momento vivido pela mulher (“dietas do resguardo”), mas são dispensáveis do ponto de vista nutricional, se a mãe tiver uma dieta balanceada. Quem não gostaria de uma boa canja de frango cuidado no quintal? Só não precisaria ser a mesma durante 40 dias.

11. E quanto a medicamentos, quais os principais cuidados em relação a eles no período em que a mãe está amamentando?

Como informei anteriormente, a única necessidade absoluta de complementação é de ferro. Qualquer outra necessidade vai depender da avaliação do profissional de saúde.

 

12. Considerações finais

Pontuei ao longo da entrevista o grande impacto do apoio familiar e dos profissionais de saúde à mãe, desde a gestação, no sucesso da amamentação. Como estratégia muito bem-sucedida de apoio por parte dos serviços de saúde, temos os Bancos de Leite Humano/Postos de Coleta de Leite Humano, locais privilegiados de apoio à amamentação. Estes serviços, são responsáveis por processar o leite humano de várias mães (doadoras), tornando-o adequado para ser utilizado para qualquer outra criança que não esteja recebendo o leite de sua própria mãe. Cumpre ainda um outro papel fundamental, que é servir como ponto de apoio para sanar dúvidas quanto à técnica da amamentação e, mais impactante ainda, servir como ponto de escuta destas mães, aliviando seus medos e fortalecendo sua capacidade de nutrir e criar uma criança, a sua criança!

O leite processado nos Bancos de Leite Humano é utilizado principalmente em crianças de Unidades de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN), até que possam receber o leite de suas mães.

 

 

Ascom HC-UFG/Ebserh