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"A tendência é que a telemedicina se amplie e seja capaz de diminuir filas de espera"

ENTREVISTA

"A tendência é que a telemedicina se amplie e seja capaz de diminuir filas de espera"

A chefe da Unidade de Telessaúde, Silvia Simões, conta a história de pionerismo do HU-UFS na telemedicina em Sergipe.

A telemedicina tem oferecido oportunidades únicas em lugares com núcleos de população dispersos ou escassez de médicos especialistas. Assim tem entendido, por exemplo, o Serviço de Saúde e o Ministério de Sanidade de Gana, que, em julho de 2018, já contabilizava seis centros de teleconsultas em todo o país. No Brasil, a discussão recente sobre a regulamentação da telemedicina pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) tem trazido à tona alguns exemplos de sucesso das suas modalidades.

Pioneiro em Sergipe, o Hospital Universitário da Universidade Federal de Sergipe (HU-UFS), unidade vinculada à Rede da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), iniciou o projeto piloto de telemedicina em 2013. A chefe da Unidade de Telessaúde do HU-UFS, Silvia Simões, ligada à Gerência de Ensino e Pesquisa (GEP), conta a história desse e de outro projeto – com início em dezembro de 2018 – que facilitaram a vida de pacientes no interior de Sergipe. Trata-se da interteleconsulta, uma das modalidades de teleconsultas: o paciente, acompanhado de um médico generalista, participa duma interconsulta com um especialista que está do outro lado da tela. Otimista nos seus relatos, Silvia, que é especialista em Pediatria e Alergia e Imunopatologia, acredita que a telemedicina pode transformar o conceito de acesso à assistência sanitária para aqueles que estão tão longe dos centros de referência e excelência.

HU-UFS-EBSERH – Como surgiu a telemedicina no HU-UFS?

Silvia Simões – Surgiu em 2013, fruto de uma parceria que a UFS fez com o Setor de Responsabilidade Social da [empresa] Cisco. Na época, o projeto foi intitulado “crianças saudáveis conectadas”. A ideia era diminuir as distâncias entre os municípios de Aracaju, Lagarto e Tobias Barreto, e dar um atendimento a crianças, atendidas nas Clínicas de Saúde da Família, que tinham alguns problemas peculiares de saúde. Essas crianças eram atendidas pelo médico de Saúde da Família em Lagarto e Tobias Barreto, mas precisavam de um apoio especializado. Oferecemos, então, duas especialidades: gastrenterologia e alergia e imunopatologia pediátricas. Fazíamos o que passamos a chamar de consulta colaborativa: através do equipamento tecnológico, conseguíamos nos conectar com Lagarto ou Tobias Barreto, posteriormente a uma agenda pré-determinada de horários. Do outro lado da tela, para nós que estávamos em Aracaju, aparecia o médico generalista com a mãe ou o responsável legal e a criança. O médico nos apresentava o caso e, nesse momento, tínhamos a oportunidade de interagir com eles.

HU-UFS-EBSERH – Era mais que uma passagem de caso clínico.

Silvia – Sim, porque podíamos saber mais informações. Podíamos sentir o paciente e tirar as suas dúvidas ao vivo. Criávamos um ambiente que se chama telepresença. É como se estivéssemos presencialmente lá.

HU-UFS-EBSERH – Qual era a vantagem disso?

Silvia – Primeiramente, aquela criança não precisava perder o dia de aula. O pai não precisava perder o dia de trabalho. Isso tudo aconteceria se eles tivessem que vir para cá, entrar na fila e esperar conseguir uma consulta presencial. As unidades básicas de saúde eram equipadas com os mesmos equipamentos que tínhamos aqui. Era algo bom para todo mundo.

HU-UFS-EBSERH – E de que se trata esse novo projeto, que começou em dezembro de 2018?

Silvia – Começou com uma demanda do Hospital Universitário de Lagarto [HUL-UFS], recentemente incorporado à Ebserh, que ainda não está com o seu corpo clínico totalmente formado. O gerente de Ensino e Pesquisa do HUL-UFS, Fernando Every, sugeriu para nós que reativássemos o projeto das teleinterconsultas, porque eles precisam muito de consultas com especialistas. Além de reduzir a distância entre Lagarto e Aracaju, estamos fazendo interação entre dois campi da UFS, duas filiais da Ebserh, fortalecendo a universidade.

HU-UFS-EBSERH – Quais foram as especialidades solicitadas?

Silvia – Eles nos solicitaram pneumologia, hematologia, dermatologia e psiquiatria. Todos os profissionais que aceitaram fazer parte desse novo projeto também estão envolvidos com a docência, o que é excelente, porque um professor está sempre disposto a discutir a origem do problema, a orientar e estar com o residente.

HU-UFS-EBSERH – E que novidades podemos esperar desse novo projeto?

Silvia – A ideia agora é trabalhar com paciente adulto internado. Ele está internado lá no HUL-UFS e o generalista tem dúvidas, como em qualquer hospital do mundo, referentes a alguma especialidade. Nesse momento, começa o fluxo: eles pedem para agendar uma consulta conosco e providenciamos a data. No dia da teleinterconsulta, temos o paciente, o clínico geral preceptor e o residente da Clínica Médica em Lagarto; do outro lado da tela, em Aracaju, o médico especialista vai interagir com eles. O papel do especialista é o de orientar a conduta diagnóstico-terapêutica daquele paciente, conforme as perguntas do generalista. Em termos de assistência em longo prazo, a tendência é que a telemedicina se amplie e seja capaz de diminuir filas de espera no HU-UFS, que é a referência de especialidades em Sergipe.

HU-UFS-EBSERH – Imagino que isso reverbere positivamente, também, na seara da pesquisa.

Silvia – Em termos de pesquisa, eu acho que é possível investigar quanto a incorporação das novas tecnologias da informação e comunicação pode realmente melhorar a saúde do paciente. Posso estudar, por exemplo, o quanto um paciente, que não precisou vir ao HU-UFS, diminuiu os seus custos com saúde. É uma economia para o paciente, porque ele não precisa gastar dinheiro com transporte e perder o dia de trabalho. Pode diminuir custos, inclusive, para as próprias instituições envolvidas. Além do mais, é possível estudar a própria qualidade de vida do paciente: ele pode ser atendido num espaço que lhe é mais confortável, parte da sua realidade local, em vez de cruzar grandes distâncias para uma consulta. Imagine o quanto é bom você ter acesso a um determinado profissional num local em que não existe o atendimento presencial.

HU-UFS-EBSERH – E como é a receptividade do paciente a essa modalidade?

Silvia – Primeiramente, é sempre bom lembrar que o paciente não é obrigado a fazer a teleinterconsulta. É uma opção que é colocada a critério do paciente. Na nossa opinião, a experiência que já tivemos, que foi muito positiva, e outras experiências no mundo inteiro mostram que existe uma aceitabilidade grande a essa modalidade de interconsulta.

HU-UFS-EBSERH – Em toda essa discussão sobre telemedicina, tem-se falado muito em ética médica. Como relacionar essa nova forma de fazer medicina com os princípios éticos inerentes à profissão?

Silvia – A ética médica gira em torno da proteção ao paciente, e é com isso que temos de nos preocupar. Dentro do contexto da telemedicina, os projetos precisam ser alinhavados pensando na educação em saúde e na assistência que o paciente merece. Quando você incorpora tecnologias à prática da medicina, uma das grandes questões é o sigilo; justamente por isso é que não podemos fazer consultas pelo WhatsApp. A ferramenta precisa me garantir que a informação não vazará, em hipótese alguma. A nossa conduta tem de ser pautada pelo bom senso e pela competência médica.

Sobre a Ebserh

Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) administra atualmente 40 hospitais universitários federais. O objetivo é, em parceria com as universidades, aperfeiçoar os serviços de atendimento à população, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), e promover o ensino e a pesquisa nas unidades filiadas.

Criada em dezembro de 2011, a empresa também é responsável pela gestão do Programa Nacional de Reestruturação dos Hospitais Universitários Federais (Rehuf), que contempla ações em todas as unidades existentes no país, incluindo as não filiadas à Ebserh.

Por Luís Fernando Lourenço