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Superação marca gravidez e parto de paciente com AME

MEDICINA

Superação marca gravidez e parto de paciente com AME

Uma equipe composta por médico, enfermeiros, residentes e estudantes de graduação acompanhou o caso desde o início.

O pequeno Felipe nasceu com 2,632kg, 34 cm e após 35 semanas de gestação. Uma informação que poderia ser corriqueira, não fosse a condição de saúde da sua genitora. Deyse Kelle dos Santos, 27 anos, mãe do bebê, tem Atrofia Muscular Espinhal (AME), doença neuromuscular caracterizada pela degeneração e perda de neurônios motores da medula espinal e do tronco cerebral, o que causa fraqueza muscular progressiva e atrofia.

Deyse não anda, não mobiliza as pernas e movimenta parcialmente apenas um dos braços. Sua gestação desafiou uma equipe do Hospital Universitário da Universidade Federal de Sergipe (HU-UFS), filial da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), onde ela fez o seu pré-natal.

O ginecologista e obstetra José Wilson Viana conta que a primeira consulta de Deyse no HU-UFS foi em dezembro de 2018, com oito semanas de gestação. Uma equipe composta por médico, enfermeiros, residentes e estudantes de graduação acompanhou o caso desde o início.

“Foram pelo menos 12 pessoas dedicadas ao acompanhamento da gestação. É uma situação rara, mas isso não interrompeu a continuidade da gravidez. Tivemos muita sorte, não houve prematuridade, não foi preciso tirar esse bebê antes da hora e ele nasceu quase fechando o nono mês de gestação”, comemora o médico.

Risco

“Existia o risco de o bebê nascer muito pequenininho, a paciente foi acompanhada por nutricionista, entramos com polivitamínico, que não é universal para toda gestante, mas ela precisava. Fizemos um parto programado, a internação foi antecipada, ela precisou de anestesia geral. O parto e a internação ocorreram em outros hospitais. E menos de 20 dias após o parto, a paciente está ótima, inclusive amamentando”, detalha José Wilson.

O obstetra explica que a principal diferença da gravidez de uma paciente com AME para uma gravidez comum pode ser a restrição de crescimento do bebê. “O exame físico específico para a gestante, que a gente faz com fita métrica, com as mãos, também é diferenciado, devido à limitação dos movimentos. No caso de Deyse, a gente se baseou muito em exames de imagem. Foi uma vigilância constante, com consultas semanais”, diz.

Envolvimento

José Wilson relata que esse caso marcou toda a equipe. “Muda a nossa rotina e nos deixa muito felizes em poder fazer uma coisa mais do que técnica, participar diretamente, de forma muito próxima, se envolver com a paciente. Situações como essas vêm para coroar, para mostrar que saúde e educação pública podem ser feitas com qualidade, independente das condições adversas. Cada um fazendo a sua parte”, complementa o médico.

O envolvimento emocional com a paciente também fez parte da rotina da enfermeira Fernanda Argolo, do HU-UFS. “O caso que acompanhei mais parecido com esse foi a de uma paciente com deficiência auditiva, mas essa experiência com Deyse foi incrível, porque poderia acontecer um parto prematuro extremo, mas conseguimos alcançar as 35 semanas, acolhê-la de forma diferenciada. Para pesá-la, por exemplo, sempre contamos com os alunos, com os colegas, que a colocavam no colo. Agora, menos de 20 dias após o parto, a gente consegue ver a paciente amamentando, com leite suficiente. É uma satisfação imensa”, declara.

Família

Fernanda foi além do atendimento ambulatorial. “Dei de presente a Deyse a pintura da barriga com a simulação na imagem da posição do bebê, porque é um momento terapêutico, traz alegria para família e paciente, acalma, diminui a ansiedade. Tenho certeza que foi um momento marcante para ela. A família toda se envolveu: vó, bisavó, marido e até o cachorro. A participação do parceiro durante toda a gestação foi fundamental também”, expõe a enfermeira.

O bebê nasceu no dia 17 de julho de 2019. De lá para cá, Deyse ficou internada na Unidade de Terapia Intensiva em outro hospital, mas recebeu alta e fará todo o acompanhamento ginecológico no HU-UFS. A paciente diz que o apoio e os cuidados dos profissionais do HU foram fundamentais para que tudo desse certo.

“Sou casada há cinco anos e, quando descobri que estava grávida, fiquei surpresa e ao mesmo tempo com muito medo, pois há um tempo os médicos me disseram que eu não tinha espaço para gerar uma criança, seria muito arriscada uma gestação, com risco de ficar os nove meses no hospital, ou vegetando, e até morrer. Mas os milagres de Deus são inexplicáveis, tive acompanhamento todas as semanas por anjos que Deus colocou em meu caminho, tive uma gestação tranquila, a cada dia que passava o repouso aumentava, segurei o máximo cada mês para que meu bebê não fosse prematuro”, emociona-se Deyse Kelle.

“No dia do parto tive que ser entubada, para não correr o risco de ter algum problema com meus pulmões. Com sete dias de internada recebi alta e fui para casa conhecer meu milagre, tenho enfrentado vários obstáculos que não tinha conhecimento, mas com a ajuda de Deus, família e amigos estou superando e me recuperando a cada dia. Sou um milagre e tive a dádiva de gerar um milagre. Aprendi que só Deus sabe de todas as coisas e que, para quem tem fé, a vida nunca tem fim”, declara.

Sobre a Rede Hospitalar Ebserh

O Hospital Universitário da Universidade Federal de Sergipe (HU-UFS) faz parte da Rede Hospitalar Ebserh desde outubro de 2013. Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) foi criada em 2011 e, atualmente, administra 40 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência.

Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), e, principalmente, apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas.

Devido a essa natureza educacional, os hospitais universitários são campos de formação de profissionais de saúde. Com isso, a Rede Hospitalar Ebserh atua de forma complementar ao SUS, não sendo responsável pela totalidade dos atendimentos de saúde do país.

Por Andreza Azevedo

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