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Saiba mais sobre o médico que deu nome ao hospital

Hucam - 52 anos

Saiba mais sobre o médico que deu nome ao hospital

Trajetória humanitária, dedicação à família e aos colegas de medicina são traços da memória de Cassiano Antônio Moraes

VITÓRIA (ES) - No dia 21 de dezembro de 2019, o Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes (Hucam-Ufes) completa 52 anos de fundação. Neste dia tão especial, a equipe da Unidade de Comunicação do Hucam consegue revelar detalhes que ajudam a contar a história do médico que dá nome à instituição.

No ano seguinte em que o endocrinologista Cassiano Antônio Moraes sucumbiu a um câncer de pulmão, o então Hospital das Clínicas finalmente ganhou um nome oficial e passou a ter, desde 1980, a designação pela qual é conhecido.

“Papai era muito dedicado à medicina e, ao mesmo tempo, um amante da vida em família e com amigos.”, afirmou o filho que recebeu o mesmo nome do pai, o engenheiro Cassiano Antônio Moraes Filho.

No testemunho do filho, que no início da fase adulta perdeu o pai, entre 18 e 19 anos, Cassiano não era só um excelente profissional, como também um grande pai e amigo, que fazia o possível para estar presente em todas as redes de relacionamento das quais fazia parte. Gostava, por exemplo, de se reunir mensalmente com os colegas médicos para jantar fora, seja em restaurante ou na casa de algum deles.  

“Não era fácil se equilibrar entre esses múltiplos grupos. Papai era endocrinologista e nos anos 1960 e 70, não havia tanta facilidade no tratamento da diabetes. Muitas vezes, o jantar era interrompido por telefonemas de pacientes em crise, e lá ia papai para ver um paciente no meio da noite” conta Cassiano Filho.

O cuidado único que tinha com todos os seus pacientes pode ser apontado como uma das qualidades que a instituição que leva seu nome carrega até hoje. O legado humanista do endocrinologista está estampado na, digamos, certidão de batismo do Hucam-Ufes, a resolução do Conselho Universitário que publicou a decisão pela homenagem.

Segundo Maria Zilma Rios, responsável pelo Cedop (Centro de Documentação e Protocolo do Hucam), seu nome foi primeiramente sugerido pela comunidade hospitalar, depois passou pelo crivo do Departamento do Centro Biomédico e, por fim, foi aprovado pelo Conselho Universitário, cerca de um ano após a sua morte. No registro que trata desta resolução, consta uma referência a essa escolha, que resume bem a importância da figura do médico para a instituição:

“Pela resolução n 12/80 o Conselho Universitário houve por bem dar ao Hospital o nome do saudoso Prof. Cassiano Antônio de Moraes. Uma homenagem justa ao mestre, amigo, médico humanitário que muito emprestou sua capacidade e dedicação ao Hospital Universitário. Este foi o reconhecimento a justiça feita pela Universidade à memória de Cassiano Antônio Moraes tão cedo levado a morada dos juntos” . O documento, assim como outros registros históricos, estão à disposição para consulta no Cedop.

Fonte: Centro de Documentação e Protocolo do Hucam

Confira a entrevista feita com Cassiano Antônio Moraes Filho. Antes de começar a responder, ele fez questão de esclarecer que algumas memórias podem estar distorcidas pelo tempo, afinal, faz 40 anos que o pai morreu. Nada disso, no entanto, reduz a importância e o registro afetivo que vemos a seguir:

1- Quem foi o seu pai? Como ele era reconhecido pelas pessoas que conviviam com ele?

Papai era um cara muito amoroso, alegre, inteligente e estudioso, entre outras coisas. Tinha muitos amigos, fossem médicos ou não. Cuidava das pessoas com um carinho único e acho que essa é a principal característica que pacientes, familiares, amigos e colegas de trabalho lembram quando pensam nele. Papai era um clínico muito bom, sabia conversar com os pacientes e obter as informações necessárias para um bom diagnóstico. Não se pode esquecer que há 40-50 anos os exames e técnicas não eram avançadas nem tão acessíveis como hoje e a anamnese era a grande ferramenta do médico para entender o que acontecia com os pacientes.

2- Como ele se relacionava com a família e com o trabalho?

Papai era muito dedicado à Medicina e ao mesmo tempo um amante da vida em família e com amigos. Então, não era fácil se equilibrar entre esses múltiplos grupos. Papai era endocrinologista e nos anos 1960-70, não havia tanta facilidade no tratamento da diabetes. Muitas vezes o jantar era interrompido por telefonemas de pacientes em crise, e lá ia papai para ver um paciente no meio da noite.

Papai era apaixonado por mamãe e sempre teve por ela um amor e carinho muito evidentes para todos nós e um cuidado com a família muito grande também.

Uma faceta que talvez poucos conheçam de papai é como ele tinha gosto e habilidade para fotografia. Ele criou um cavalete para tirar fotos de material para aulas que ele mesmo revelava em casa (eram fotos em preto e branco), mas ele também sempre levava a máquina fotográfica para viagens e reuniões de família e com amigos e tirava muitas fotos, especialmente slides (diapositivos), que depois ele mostrava em sessões lá em casa.

Adorava música também. Nos fins de semana, sempre havia música tocando na vitrola lá em casa, fosse música erudita (me lembro de Vivaldi, Beethoven, Paganini) ou popular (clássicos americanos e sambas).

Nas tentativas de acomodar a atenção para com os doentes e o desejo de conviver conosco, ele nos levava com ele para as rondas de visita a hospitais. Ficávamos no carro esperando por ele frente os hospitais e depois sempre tinha um picolé ou sorvete para compensar. Acho que era uma forma de se manter perto de nós.

Papai cuidava de toda a família e tios meus, irmãos de mamãe, moraram conosco enquanto estudavam. Viajávamos muito para Minas Gerais, ver a família de mamãe, para Iúna (ES), ver parentes de papai. Íamos também muito a Camburi nos fins de semana, na época que a praia era ainda quase virgem, sem as construções de hoje. 

Tinha com os amigos médicos uma relação forte de amizade e companheirismo e me recordo que mensalmente se reuniam para jantar com as respectivas esposas em restaurantes ou na casa de um deles.

3- Qual a importância de ter o nome dele associado ao Hospital? Como você se sente com essa homenagem?

Sempre foi uma honra para meus irmãos e eu ter papai homenageado dessa forma, porque, ser professor foi uma outra faceta do Dr. Cassiano que muitos conheceram e que ele gostava e vivia com paixão. Estar associado a um hospital escola junta duas de suas maiores paixões na vida.

Naquela época era ainda o Hospital das Clínicas e muitas vezes, eu ainda criança, ficava esperando por ele enquanto ele visitava pacientes internados.

4- Qual o legado que ele deixou para vocês como família e para o hospital?

Para nós ficou o sentido de responsabilidade com a profissão e com a família, principalmente, a importância de ter carinho e cuidado com as pessoas que dependem de nós e respeitar as características de cada um, a despeito das diferenças entre as pessoas.

5- Em qual período Cassiano esteve no hospital? Em que ano ele se foi?

Ele foi um dos fundadores do hospital, se não me falha a memória, e só saiu de lá quando faleceu, em 1979, por complicações de um câncer de pulmão. Ele foi de uma geração que fumava muito. Ele chegou a fumar 3 maços de cigarro diariamente.