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Um olhar sobre a importância da Reforma Psiquiátrica Italiana e o fechamento dos manicômios

Modelo para o mundo

Um olhar sobre a importância da Reforma Psiquiátrica Italiana e o fechamento dos manicômios

Há mais de 40 anos, 19 pavilhões localizados na cidade de Trieste (norte da Itália) deixavam de ser depósito de pessoas com transtornos mentais para se tornar o berço da reforma psiquiátrica no mundo. O fim dos chamados manicômios, em 1978, foi resultado da luta do médico psiquiatra e ex-professor universitário Franco Basaglia. Ele conseguiu aprovar a Lei 180, fechando as portas dos pavilhões e reinserindo socialmente seus mais de 1 mil internos. A reintegração social, além do tratamento clínico de forma humanizada, com participação ativa da família, teve dois princípios norteadores: a inserção da habitação e do lavoro (trabalho) assistidos, como parte do tratamento.

Essa experiência italiana do fazer compartilhado (Fareassieme, expressão que significa fazer juntos), adotada na psiquiatria comunitária, foi relatada por outros dois italianos. O psiquiatra Renzo de Stefani, idealizador desse modelo de atenção, e o usuário Maurizio Capitanio estiveram em Santa Maria, em maio, e palestraram para um público de mais de 200 pessoas, que lotaram o auditório do Centro de Ciências Sociais e Humanas (CCSH).

Sete meses antes, a psiquiatra Martha Noal, fundadora da Associação de Familiares, Amigos e Bipolares (AFAB) e do Espaço Nise da Silveira esteve em um congresso na Itália - o 19º Le Parole Ritrovate (As Palavras Reencontradas) relatando o trabalho da associação. Ela integrou a delegação gaúcha, que incluía profissionais da área da saúde mental, usuários e familiares de Ijuí, Panambi e Cachoeira do Sul.

- O que mais me chamou atenção no evento, além da seriedade e profundidade, foi o protagonismo. E todos – profissionais, familiares e usuários – subiam ao palco e relatavam suas experiências. Foi muito rico – afirmou.

 A psiquiatra fez questão de fazer uma imersão no serviço de saúde mental italiano, onde permaneceu por 11 dias, em visitas técnicas. Ficou hospedada em um dos residenciais terapêuticos mantidos pelo governo, na cidade de Trento, sede do congresso, e acompanhou a rotina dos trabalhadores e moradores.

- Esse belíssimo lugar, chamado Casa del Sole, localizado no alto de uma montanha, tem três andares. No primeiro, funcionava oficinas terapêuticas para os usuários. O segundo era moradia de 14 deles e, o terceiro, era voltado para o turismo social, onde fiquei hospedada. Na casa, todos trabalhadores – desde o camareiro até quem preparava e servia as refeições – eram usuários em reabilitação. – afirma a psiquiatra.

Lá, a psiquiatra teve a oportunidade de acompanhar uma reunião de planejamento de trabalho dos moradores/usuários. A equipe multiprofissional apresentou uma planilha com todas as vagas de trabalho para a semana, nas cooperativas mantidas pelo governo (limpeza de escritórios, lavagem de carros, salão de beleza, cafés e até uma revista: a Liberalamente). Os próprios usuários decidiam onde iriam trabalhar e por quanto tempo. As cooperativas remuneram, proporcionalmente, ao tempo de atividade exercida.

Além disso, os Centros de Saúde mental – onde são prestados atendimentos clínicos ambulatoriais – funcionam 24h.

- Dos ambulatórios, as equipes se falam, diariamente, por videoconferência ou telefone, com as unidades de internação, que ficam nos hospitais gerais e trocam informações sobre os usuários otimizando os tratamentos – conta Martha.

Em Trento, há seis modalidades de residencial terapêutico, desde a mais assistida - que tem cuidado 24h - até o apartamento em que um profissional de saúde, uma vez por semana, passa para dar uma olhada. De acordo com os recursos, alguns pagam um percentual para residir nos locais.

- Uma das histórias que conheci lá, muito interessante, é de uma filha com um caso psicótico grave, que não tinha condições de viver com a mãe. Não se toleravam. A filha foi viver em um residencial terapêutico e a mãe foi trabalhar no acolhimento de usuários em outro residencial. Trabalhar como plantonista noturna para cuidar dos filhos dos outros. Ambas estão sendo cuidadas e tratadas. A mãe, tornou-se uma UFE (Usuária/Familiar/ Expert), conceito originário do modelo trentino do cuidado em saúde mental – explica.

 

De Trento, Martha seguiu para Trieste. Depois de 6h de viagem, chegou aos pavilhões do antigo manicômio, que hoje fazem parte do Parque São Giovani.

- Fui realizar um sonho, um projeto pessoal para validar tudo o que eu faço há quase 27 anos, aquilo que eu acredito. Tudo que eu li a vida inteira sobre Reforma Psiquiátrica Italiana está lá. Para mim, ter ido a Trieste, foi o fechamento de um ciclo de vida profissional.

Atualmente, em três dos pavilhões funciona a Faculdade de Medicina, em outro, a sede da Organização Mundial da Saúde de Trieste. Noutro, o Teatro Franco Basaglia e nos demais, cooperativas (públicas) de saúde mental.

- Uma das cooperativas, a Pantaleone, é de roseiras, onde eles cultivam 6 mil tipos de rosas. Na OMS, visitei a exposição sobre os 40 anos da reforma psiquiátrica e vi as esculturas, de ferro e papel machê, do Marco Cavalo. Esse cavalo trabalhava no manicômio, puxando a charrete. Ficou velho e alguém teve a ideia de sacrifica-lo. O Basaglia fez uma assembleia com os usuários e eles disseram: “ O Marco Cavalo é como a gente. Ele é velho e improdutivo e se matarem o Marco, é como matarem a gente.” Então preservaram o animal. Cuidaram dele até a morte. A réplica em tamanho original, em papel machê chegou a ser levada de avião a um congresso em outra região da Itália. Essa é uma das histórias que está nos livros.

A imersão no berço da reforma psiquiátrica italiana já gerou, no retorno da médica ao Brasil, uma palestra na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), uma Roda de Conversa no ChimaSUS do Serviço Social da UFSM, duas palestras na UNISC (1 para profissionais da 13ª CRS e outra para estudantes de Psicologia) e uma Roda de Conversa no XXIII Fórum Regional Permanente de Saúde Mental do Vale do Rio Pardo.

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