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MEAC realiza primeira cirurgia fetal com útero exposto no Ceará

MIELOMENINGOCELE

MEAC realiza primeira cirurgia fetal com útero exposto no Ceará

No dia em que completava 35 anos, Fernanda Oliveira se preparava para mais um grande desafio: a cirurgia a que seria submetida na manhã seguinte para corrigir uma malformação congênita da bebê que carrega no ventre. Faltam algumas semanas para Maria Giovana nascer, mas ela já entra para a história da medicina fetal do Ceará, como a primeira bebê operada para correção de mielomeningocele ainda no útero da mãe. A cirurgia, de alta complexidade, mobilizou todo o hospital e envolveu mais de 20 profissionais de saúde altamente especializados, entre médicos neurocirurgiões pediátricos, obstetras fetólogos, anestesiologistas e neonatologistas, além de farmacêuticos, enfermeiros e técnicos de enfermagem. O procedimento foi um sucesso: Mãe e bebê se recuperam muito bem e seguirão monitorados até o nascimento.

A cirurgia, inédita no Estado, foi realizada na Maternidade-Escola Assis Chateaubriand (MEAC), do Complexo Hospitalar da UFC/Ebserh, no último domingo, dia 26 de maio de 2019. Coordenado pelos professores de Medicina da UFC Edson Lucena e Herlânio Costa, o procedimento foi viabilizado com a vinda de quatro médicos de São Paulo: os neurocirurgiões Sérgio Cavalheiro e Italo Suriano e os obstetras fetólogos Antonio Fernandes Moron e Maurício Barbosa, além da participação do neurocirurgião pediátrico Eduardo Jucá e da anestesiologista Fernanda Castro e equipe. 

Sobre a mielomeningocele

Também conhecida como espinha bífida aberta, a mielomeningocele é uma malformação congênita da coluna vertebral do bebê em que as meninges, a medula e as raízes nervosas estão expostas. O defeito surge antes da 8ª semana de gestação, durante a fase de formação dos órgãos.  Se não corrigido, traz graves sequelas no desenvolvimento neurológico da criança. As causas são multifatoriais, podendo ser genéticas ou ambientais.

A Sociedade Brasileira de Neurocirurgia estima que a cada 1.000 nascimentos, 1 a 10 bebês podem ter essa condição. Por isso, a medicina fetal tem concentrado esforços para tentar corrigir com o máximo de precocidade, evitando danos mais severos. A técnica mais comum é uma neurocirurgia nos primeiros dias após o nascimento. Mas nos últimos anos, a cirurgia no bebê ainda no útero da mãe tem sido a opção mais eficaz.

Cirurgia intrauterina a céu aberto

A principal inovação na técnica utilizada na cirurgia de Maria Giovana é que ela é feita “a céu aberto”, ou seja, os médicos colocam o útero da paciente para fora e fazem uma pequena incisão nele, através da qual operam a coluna do feto. Em seguida, fecham as incisões e o útero é inserido novamente no abdômen da mãe. A gestação segue normalmente até o nascimento do bebê, geralmente prematuro.

“O procedimento melhora o prognóstico dessas crianças no sentido motor, neurológico e no desenvolvimento em toda a sua vida, com menor taxa de hidrocefalia e favorecendo uma independência para elas. Já há evidências científicas consistentes de que quando a cirurgia é realizada intra-útero o resultado neurológico é melhor do que a cirurgia pós-natal”, explica Edson Lucena.

No caso da cirurgia a céu-aberto, o ideal é sua realização entre a 24ª e a 26ª semanas da gravidez. Para isto, é fundamental que o diagnóstico seja feito o mais precoce possível para que haja tempo de orientação adequada e preparo da paciente e a família possa tomar sua decisão. “A mielomeningocele já pode ser suspeitada no ultrassom morfológico de 1º trimestre, entre 11 e 14 semanas de gestação, e confirmada a partir da 15ª semana, em geral, no morfológico de 2º trimestre, de 18 a 24 semanas”, aponta Herlânio Costa.

Perspectivas

Segundo o gerente de Atenção à Saúde da MEAC, Carlos Augusto Alencar Júnior, a maternidade já deu entrada ao processo de habilitação para oferecer neurocirurgias de alta complexidade, como esta, via SUS. Anseio compartilhado com o também professor Moron: “Hoje marcamos um momento muito importante da história da cirurgia fetal do país. As pessoas buscam realização de cirurgia de forma isolada. Aqui tivemos um comprometimento institucional, ligado ao SUS, e a mielomeningocele é muito mais prevalente entre pessoas de poucos recursos. Estar disponibilizando a cirurgia próximo da moradia dessas pessoas é fundamental”, afirmou. Moron destacou ainda que a MEAC está numa posição de liderança no Nordeste, com estrutura hospitalar e corpo técnico totalmente preparado para oferecer esse procedimento sistematicamente. Essa capacitação é fruto de um projeto de cirurgia fetal pensado para todo o Estado, numa parceria de várias especialidades, incluindo cirurgia pediátrica capitaneada pelo professor Aldo Melo, da UFC.

Uma chance para a esperança

Enfermeira e moradora de Russas, a 150 quilômetros de Fortaleza, Fernanda Oliveira já é mãe de Maria Beatriz, de 5 anos, que também tem mielomeningocele. As limitações no desenvolvimento da primogênita foram a principal motivação para que a família buscasse um tratamento precoce para a bebê que está sendo gerada. “Busquei informação em todo o país, mas a cirurgia particular era impossível para nós. Foi um especialista de Curitiba quem me indicou o Dr. Herlânio, aqui da MEAC”, contou.          

A partir da primeira consulta na Maternidade-Escola, a família e o hospital se organizaram rapidamente para a cirurgia. Três dias após o procedimento, Fernanda segue se recuperando muito bem, conseguindo andar, medicada e sem dor. O marido e a mãe também estão dando todo o suporte. “É uma vitória de toda a família. A saúde da Giovana vai ser importante até mesmo para a qualidade de vida da Beatriz, que demanda muito nossa atenção. Não temos palavras para agradecer a Deus e a todos os profissionais envolvidos”, conclui a paciente.

 

Confira fotos da cirurgia